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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A MUSICA CLÁSSIA E A REDAÇÃO DE TEXTOS

Tive o prazer de ser agraciado com um livro de excelente lavra denominado “Alucinações Musicais” de Oliver Sacks. O autor, profundo pesquisador, aponta fatos que modificaram sensivelmente as pessoas. Estes fatos tem, de alguma forma, relação com a música. Narra o livro numa de suas primeiras histórias a vida de um senhor que por mais de trinta anos ouvia em seu cérebro o início da música “as Quatro Estações “ de Vivaldi. Certo que para tal cidadão foi um tormento conviver interruptamente com aquela música por tanto tempo.

Mas o tema que pretendo abordar de forma discreta, foi citado por Oliver Sacks na sua obra.

Sou pessoa que escrevo linhas e mais linhas de textos diariamente. A vida jurídica consiste na redação de textos. São estes documentos que hão de fazer a convicção de um julgador para os casos que nós, advogados, somos responsáveis no dia-a-dia.

Sempre adiante do computador, deixo a tela de redator de textos sempre aberta para receber minhas conjecturas sobre um ou outro tema que tenho de trabalhar. Entretanto, outra janela fica aberta na Rádio Cultura FM de São Paulo que tem uma programação exclusiva de música clássica. Noutras oportunidades as nossas rádios locais são ouvidas por mim.

Desta forma, redigindo e ouvindo música, passo meus dias.

Certa feita notei que minha redação estava muito variável. Estas modificações incluíam algumas características antagônicas entre si: ora meus textos eram longos, ora muito sucintos. Nalgumas vezes redigia com português clássico e escorreito, e alguns outros textos eram muito simplórios no vernáculo. Certos textos eram recheados de veemência, outros amenos nos chamativos / avocativos para o tema abordado. E assim passei a me questionar o motivo de meu estilo de redação ser tão variável e variar tanto em tão pouco tempo. Num único dia eu notava pelo menos umas três formas distintas de redação. Minha investigação continuou até que um dia eu digitava com uma enorme velocidade digna dos meus bons tempos de escrevente nos estágios da faculdade de direito em Alfenas. As teclas eram rapidamente acionadas e meus dedos bailavam sobre o teclado muito rapidamente. Percebi então que eu digitava no ritmo de “In Taberna” da célebre obra de Carl Orff, “Carmina Burana”. De fato a cancionata é rápida, e o coral deve ser extremamente ágil com o latim para conseguir cantar tão rapidamente. Rápido como eu escrevia!

Terminado o texto passei a redação de uma peça processual onde eu tratava de uma adoção de menores e fui agraciado com a audição de “A paixão de Cristo Segundo São Mateus” de Bach. De dolorida musicalidade o oratório e sua melodia auxiliaram-me num bom texto onde toda a dor de pais que tinham os filhos arrebatados pela adoção. Sem dar-me conta lancei no meu texto a seguinte expressão “Pai, Pai, porque me abandonaste” fazendo referência àqueles filhos que não mais veriam seus pais biológicos e um dia questionariam sobre os motivos da perda da paternidade para uma adoção. Tal redação deu-se exatamente quando o coro cantava a célebre exclamação de Cristo no alto do Calvário. Mas o coral cantava tal frase em hebraico: Eli Eli Lama Sabactâni. Imperceptivelmente meu texto estava impregnado da dor de Cristo que se sentiu abandonado pelo Pai, assim como aqueles filhos estavam prestes a sair de suas famílias pelo fato de seus pais não os ter dispensado a necessária atenção.

De fato, neste momento concluí que a musicalidade afeta diretamente a redação de textos. Assim sendo, passei a escrever minhas poesias, contos e postagens de blog, sempre sobre a oitiva de uma música diferente e notei algumas situações interessantes no que diz respeito as minhas reações a cada tipo de música.

Longe de querer sugestionar o leitor, é interessante fazer a experiência, mas em mim deu-se o seguinte:

Música clássica: redações mais longas, bem estruturadas, português escorreito; com o piano os textos são um pouco mais curtos, mas os pensamentos estão bem sintetizados na peça que escrevo;

Sertanejo: redações curtas, português simplório e exposição de pensamentos de forma vaga;

Música eletrônica: textos enérgicos, agressivos, um pouco longos também; toda a ideia que pretendia ser explanada ocorre de maneira mais firme e de forma impositiva;

A MPB deu a meus textos ares de melancolia e certa paixão; rendeu-me boas poesias.

Pagode, funk, baladão, etc: impossível escrever sob tal parafernália musical; não consegui escrever nada de valor ouvindo tais músicas.

O mais interessante é a musica religiosa: com ela a piedade vai a tal ponto que pode chegar a pedir a condenação de réu do qual sou responsável pela defesa pelo fato de ele ter usado drogas. A defesa definitivamente não sai no papel. Reconhece-se o crime a acaba-se pedindo uma pena ao cliente. É, de fato uma música não recomendável para criminalistas. Mas na defesa de interesses de mercado (direito comercial), a música religiosa sempre tende a levar o redator a um pedido de conciliação e uma certa pacificação do processo e união das partes.

Conversando com alguns colegas que tem os mesmos hábitos: escrever ouvindo música, todos ainda não tinham percebido tal influência. Passado o tempo me foram retornadas as informações destes amigos. E quão grande foi a minha surpresa quando cada um mencionava a situação processual e a música adequada para o momento. Preservando a identidade destes advogados e escritores vão aí algumas experiências:

Para um advogado criminalista a os três primeiros movimentos da Nona Sinfonia de Beethovem inspirava grandes e perfeitas defesas. Para outro advogado, um tributarista, a inspiração de redações vinha em melhor profusão com a MPB. Um perito que sempre ouvia sertanejo trocou o ritmo musical para a música eletrônica já que tal som lhe proporcionou excelentes pareceres. Alguns estudantes me informaram que antes estudavam ao som do Rock in Roll, mas depois dedicaram-se a música instrumentalizada apenas, ou seja, sem vocal, para melhor concentração nos estudos.

Apenas por observação, informo que escrevi este artigo com o som de Tiesto no remix elaborado para o filme “Piratas do Caribe”.

3 comentários:

Willians disse...

a influencia é inegável mesmo Ronaldo, no meu caso especificamente durante os treinos, sozinho na academia, não da pra fazer a parte de alongamento com a devida concentração escutando o hard core da banda capixaba dead fish por exemplo,meus pensamentos não param, pra isos montei um cd que parece sems entido nenhum devido a variações de musica.. mas no meio dele a musica irlandesa de alguma não me deixa desistir ods movimentos. no final tem algumas da trilha de Rocky Balboa pq é chavão e não pode faltar hahaha. musica é tudo e usada devidamente promove milagres.

Sabrina Noureddine disse...

Excelente postagem Ronaldo, porque sua abordagem é muito interessante!!!
Confesso que nunca parei para pensar sobre essa influência nas peças jurídicas ou acadêmicas que escrevo, mas farei o teste...
Adoro ouvir música, adoraria ter tempo para voltar a estudar piano...
A música invade o corpo e enaltece a alma.
Depois volto para contar minha experiência.
Grande abraço, Sabrina.

Anônimo disse...

hummm...boa reflexão, embora preconceituosa. Há músicas para sentirmos apenas, não necessariamente para nos espelharmos e ainda ganhar inspiraçao.